
Na seletividade alimentar infantil, o progresso nem sempre começa com uma mordida. Entenda por que olhar, tocar, cheirar e explorar novos alimentos também são conquistas importantes.
Quando pensamos na evolução alimentar de uma criança, é comum associarmos o progresso a um único resultado: ela conseguiu comer o alimento.
Mas será que comer é a única maneira de demonstrar evolução?
Para muitas crianças, especialmente aquelas que apresentam seletividade alimentar, existe um caminho de aprendizagem antes que um alimento seja aceito e consumido.
E compreender esse processo pode transformar a maneira como a família acompanha e incentiva a alimentação infantil.
Antes de comer, a criança precisa conhecer o alimento
Imagine uma criança que não tolera a presença de uma cenoura no prato. Ela reclama quando o alimento aparece, afasta o prato ou até evita permanecer à mesa.
Depois de algumas experiências positivas, essa mesma criança começa a aceitar a cenoura próxima de outros alimentos. Em outro momento, consegue tocá-la. Mais adiante, sente curiosidade para cheirar ou encostar nos lábios.
Ela ainda não comeu a cenoura, mas isso significa que não houve progresso?
Não. Essas mudanças podem representar avanços importantes na relação da criança com o alimento.
A aceitação alimentar envolve experiências sensoriais, familiaridade, segurança e oportunidades de aprendizagem.
Para algumas crianças, aproximar-se de um alimento desconhecido ou anteriormente rejeitado já representa um desafio significativo.
Quais são os passos antes de aceitar um novo alimento?
Na terapia alimentar, podemos utilizar modelos como a Escalada do Comer para observar e acompanhar diferentes formas de interação com os alimentos.
Entre essas aproximações, estão:
- Olhar: conseguir observar um alimento que antes provocava desconforto.
- Aceitar a proximidade: permitir que o alimento esteja na mesa ou próximo ao prato.
- Tocar: explorar o alimento com as mãos ou com utensílios.
- Cheirar: aproximar-se e conhecer seu aroma.
- Explorar com a boca: encostar nos lábios, lamber ou experimentar uma pequena quantidade.
- Comer: conseguir mastigar e engolir o alimento.
Essas experiências não acontecem necessariamente em uma sequência rígida. Cada criança pode apresentar diferentes respostas, necessidades e ritmos de aprendizagem.
O importante é compreender que o desenvolvimento da aceitação alimentar não deve ser avaliado apenas pela quantidade de comida ingerida.
Por que insistir para a criança experimentar pode atrapalhar?
Frases como:
“Agora prova!”
“Só uma mordidinha.”
“Você nem experimentou para dizer que não gosta!”
São comuns no dia a dia de muitas famílias e, geralmente, surgem da preocupação dos pais com a alimentação dos filhos.
Entretanto, quando toda interação com um alimento termina na exigência de experimentá-lo, uma oportunidade de exploração pode se transformar em uma situação de pressão.
A criança pode começar a associar a presença de novos alimentos a cobranças, desconforto ou conflitos.
Isso não significa que devemos deixar de apresentar alimentos ou de incentivar novas experiências. Significa que a forma como conduzimos essas oportunidades importa tanto quanto o alimento que está sendo oferecido.
A exposição alimentar precisa respeitar as habilidades, as dificuldades e os sinais apresentados pela criança.
Como valorizar pequenas conquistas na alimentação infantil?
Uma maneira de acompanhar a evolução é observar mudanças que, à primeira vista, podem parecer pequenas.
Seu filho antes não aceitava determinado alimento na mesa e agora permite que ele esteja no prato?
Já consegue participar do preparo de uma receita com um ingrediente que costumava rejeitar?
Aceitou tocar, cheirar ou explorar um alimento que antes evitava?
Esses comportamentos podem indicar maior familiaridade, tolerância ou curiosidade.
Em vez de concentrar toda a atenção na mordida, procure reconhecer essas conquistas e oferecer oportunidades positivas de interação, sem transformar cada experiência em uma obrigação de comer.
Isso não significa que qualquer contato isolado represente uma evolução consolidada. O acompanhamento considera a frequência, a espontaneidade e o contexto dessas respostas ao longo do tempo.
Quando procurar ajuda para a seletividade alimentar?
É importante lembrar que a seletividade alimentar pode apresentar diferentes intensidades e causas.
Quando a criança apresenta um repertório muito restrito, grande sofrimento diante dos alimentos, dificuldades persistentes para experimentar novas preparações ou prejuízos nutricionais, é importante realizar uma avaliação individualizada.
A terapia alimentar, quando indicada, busca compreender as barreiras que dificultam a alimentação e desenvolver estratégias adequadas às necessidades de cada criança.
O objetivo não é simplesmente fazer a criança comer a qualquer custo, mas ajudá-la a construir uma relação mais segura e positiva com os alimentos, ampliando gradualmente suas habilidades e possibilidades alimentares.
Nem todo avanço termina em uma mordida
Às vezes, o objetivo de uma experiência alimentar pode ser simplesmente permitir que a criança conheça um alimento um pouco mais do que conhecia ontem.
Reconhecer essas pequenas conquistas não significa perder de vista a importância de uma alimentação variada e nutricionalmente adequada.
Significa compreender que, para chegar até ela, algumas crianças precisam percorrer um caminho com mais apoio, tempo e experiências positivas.
Nem todo avanço termina em uma mordida. Mas cada aproximação pode ser um passo importante.
Seu filho apresenta seletividade alimentar?
Se as refeições são acompanhadas de recusas frequentes, dificuldades para aceitar novos alimentos ou preocupação com a variedade alimentar, uma avaliação nutricional especializada pode ajudar a identificar as necessidades da criança e orientar a família.
Sou Josiane Luçardo, Nutricionista Pediátrica, Mestra pela UFPel e Especialista em Nutrição Clínica Pediátrica pela USP, com atuação em seletividade alimentar infantil e terapia alimentar.
Realizo atendimentos presenciais em Pelotas/RS e online para famílias de diferentes regiões.
Conheça meus atendimentos e descubra como podemos ajudar seu filho a evoluir na alimentação.