
Você leva seu filho à consulta, ele sobe na balança e descobre que ganhou peso desde a última avaliação. Até aí, tudo bem.
Mas, quando chega o momento de medir a altura, vem a surpresa: a medida continua praticamente igual.
E então surge aquela preocupação: se a criança ganhou peso, mas não cresceu em altura, será que isso é normal?
A resposta é: depende.
O crescimento infantil não acontece de maneira perfeitamente linear. Entretanto, para entender se essa diferença entre peso e altura faz parte do desenvolvimento esperado, precisamos olhar muito além de um único número.
Como funciona o crescimento infantil?
Durante a infância, o organismo passa por diferentes fases de crescimento e desenvolvimento.
Nos primeiros anos de vida, especialmente durante o primeiro ano, o crescimento em comprimento é bastante acelerado. Com o passar do tempo, essa velocidade diminui, até aumentar novamente durante o estirão da puberdade.
Além disso, peso e altura não necessariamente aumentam na mesma proporção em todos os intervalos de acompanhamento.
Uma criança pode apresentar ganho de peso entre duas consultas sem que seja possível identificar uma mudança significativa na altura naquele mesmo período.
Isso acontece porque o crescimento é influenciado por diversos fatores, como genética, alimentação, condições de saúde, sono e desenvolvimento hormonal.
O mais importante não é quanto a criança cresceu em uma única consulta, mas como ela está crescendo ao longo do tempo.
O que significa um platô de crescimento em altura?
O termo platô de crescimento costuma ser utilizado quando a altura parece permanecer estável durante determinado intervalo.
Mas é importante fazer uma distinção: uma medida de altura que não mudou entre duas consultas não significa, necessariamente, que a criança parou de crescer.
Em intervalos curtos, pequenas mudanças podem ser difíceis de identificar. Além disso, diferenças na técnica de medição, no equipamento e no posicionamento da criança podem interferir nos resultados.
Por outro lado, uma ausência persistente de crescimento em altura, especialmente quando a velocidade de crescimento está abaixo do esperado para a idade, merece investigação.
Por isso, não podemos afirmar que todo platô é normal.
Como saber se meu filho está crescendo adequadamente?
Para avaliar o crescimento infantil, utilizamos as chamadas curvas de crescimento.
Esses gráficos permitem acompanhar o peso, a altura ou comprimento e outros indicadores antropométricos, considerando a idade e o sexo da criança.
Uma das principais referências utilizadas é a da Organização Mundial da Saúde (OMS).
O acompanhamento permite observar se a criança está mantendo uma trajetória de crescimento adequada ou se existem mudanças que precisam ser investigadas.
O que são os percentis de crescimento?
Os percentis ajudam a comparar as medidas de uma criança com as de uma população de referência da mesma idade e sexo.
Por exemplo, uma criança no percentil 25 de altura apresenta uma estatura superior à de aproximadamente 25% das crianças da população de referência e inferior à de cerca de 75%.
Isso não significa que ela esteja crescendo menos do que deveria.
Uma criança pode apresentar percentis mais baixos e ainda assim ter um crescimento adequado, especialmente quando sua trajetória é consistente e compatível com seu potencial genético.
Da mesma forma, estar dentro dos percentis considerados habituais não garante, isoladamente, que o crescimento esteja adequado.
Uma criança pode apresentar desaceleração importante do crescimento mesmo antes de alcançar valores classificados como baixa estatura.
É por isso que avaliamos a trajetória, e não apenas a posição da criança no gráfico.
Criança ganhou peso mas não cresceu: quando não é preocupante?
Existem situações em que essa diferença entre peso e altura não representa necessariamente um problema.
Isso pode acontecer, por exemplo, quando:
- O intervalo entre as avaliações foi curto.
- A diferença de altura é pequena e pode estar relacionada à variabilidade da medição.
- A criança mantém uma trajetória de crescimento adequada nas avaliações anteriores.
- A velocidade de crescimento é compatível com a idade.
- Não existem outros sinais clínicos preocupantes.
Entretanto, é importante destacar que estar ativa, bem-disposta e apresentar bom apetite não é suficiente para descartar alterações no crescimento.
A avaliação precisa considerar o conjunto de informações, especialmente as medidas realizadas ao longo do tempo.
Quando devemos investigar o crescimento da criança?
Algumas situações merecem atenção e justificam uma avaliação com o pediatra:
- Queda progressiva na curva de altura: quando a criança começa a apresentar desaceleração e passa a cruzar canais de crescimento para baixo.
- Velocidade de crescimento reduzida: quando o aumento da estatura está abaixo do esperado para a idade e fase de desenvolvimento.
- Ganho de peso importante sem crescimento proporcional em altura: especialmente quando ocorre aumento acentuado do IMC ou da relação peso/altura.
- Alterações persistentes no apetite, cansaço ou outros sintomas: que podem indicar a necessidade de investigar condições clínicas associadas.
- Estatura muito abaixo do esperado para o potencial genético familiar: mesmo quando a criança não apresenta outras queixas.
Essas situações não significam, necessariamente, a presença de uma doença, mas indicam que o crescimento precisa ser avaliado com mais atenção.
Dependendo do caso, o pediatra poderá considerar fatores nutricionais, hormonais, genéticos ou outras condições de saúde.
O que avaliar além do peso na balança?
Na consulta de nutrição pediátrica, o crescimento é analisado em conjunto com outros aspectos da saúde e do desenvolvimento infantil.
Entre eles:
1. Peso e altura em conjunto
O peso isolado não permite determinar se uma criança apresenta crescimento adequado.
É necessário relacionar as medidas com a idade, o sexo e os indicadores antropométricos apropriados, como o índice de massa corporal (IMC) para a idade.
2. Histórico e velocidade de crescimento
A comparação entre diferentes avaliações permite identificar se a criança está seguindo sua trajetória habitual ou apresentando mudanças importantes.
Também consideramos a altura dos pais e, quando pertinente, o potencial genético de crescimento.
3. Qualidade e variedade da alimentação
Uma alimentação nutricionalmente adequada fornece energia, proteínas, vitaminas e minerais necessários para o crescimento e desenvolvimento.
Não basta avaliar apenas a quantidade de alimentos consumidos. É importante observar a variedade alimentar e a presença de possíveis deficiências ou excessos nutricionais. Se o seu filho come pouco ou aceita poucos alimentos, vale a pena ler também: Meu filho ainda não come, mas já consegue tocar no alimento. Isso é evolução?
4. Qualidade do sono
O sono é importante para diversos processos fisiológicos relacionados ao crescimento, à recuperação e ao desenvolvimento infantil.
Por isso, dificuldades persistentes de sono também devem fazer parte da avaliação global da saúde da criança.
5. Atividade física e condições gerais de saúde
Movimento, brincadeiras, desenvolvimento motor e condições clínicas também ajudam a compor o panorama de saúde infantil.
O objetivo é compreender a criança de forma integral, e não apenas acompanhar números na balança.
Por que o acompanhamento nutricional infantil é importante?
O acompanhamento nutricional não serve apenas para identificar se uma criança está acima ou abaixo de determinado peso.
Ele permite avaliar a evolução das medidas antropométricas, identificar possíveis inadequações alimentares, acompanhar o desenvolvimento de hábitos alimentares e orientar a família conforme as necessidades de cada fase da infância.
Quando identificamos alterações importantes nas curvas de crescimento, a avaliação conjunta com o pediatra é fundamental para investigar possíveis causas e definir as condutas necessárias.
O acompanhamento regular também possibilita reconhecer mudanças precocemente, antes que elas se tornem mais significativas.
Conclusão: crescer bem é mais do que ganhar peso
Se a criança ganhou peso, mas não cresceu em altura desde a última consulta, isso não significa automaticamente que exista algum problema.
Porém, também não é uma situação que devemos considerar normal sem avaliar o contexto.
Cada criança possui suas características individuais, mas o crescimento precisa seguir uma trajetória compatível com sua idade, seu desenvolvimento e seu potencial genético.
A curva de crescimento conta uma história. E essa história não pode ser interpretada a partir de um único número.
Por isso, mantenha as consultas regulares e converse com os profissionais que acompanham seu filho sempre que perceber mudanças no crescimento.
Referências científicas
- Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Avaliação do crescimento: o que o pediatra precisa saber. Departamento Científico de Endocrinologia, 2023. Disponível em: https://www.sbp.com.br/avaliacao-do-crescimento-o-que-o-pediatra-precisa-saber/
- World Health Organization (WHO). WHO Child Growth Standards. Geneva: World Health Organization, 2006. Disponível em: https://www.who.int/tools/child-growth-standards
- World Health Organization (WHO). Growth Reference Data for 5–19 Years. Geneva: World Health Organization, 2007. Disponível em: https://www.who.int/tools/growth-reference-data-for-5to19-years
- Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Crescimento. Departamento Científico de Endocrinologia, 2016. Disponível em: https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/2016/09/CrescimentoVe8.pdf
Acompanhe o crescimento e a alimentação do seu filho
O acompanhamento nutricional pediátrico permite avaliar o crescimento, identificar dificuldades alimentares e orientar estratégias individualizadas para cada fase da infância.
Sou Josiane Luçardo, Nutricionista Pediátrica, Mestra pela UFPel e Especialista em Nutrição Clínica Pediátrica pela USP.
Realizo atendimentos presenciais em Pelotas/RS e consultas online.
Agende uma avaliação nutricional e acompanhe o desenvolvimento do seu filho com orientação especializada.